O Festival de Cannes 2025 foi histórico para o Brasil com dois prêmios na principal mostra competitiva: Melhor Direção com Kleber Mendonça Filho e Ator com o Wagner Moura. Ambos por “O Agente Secreto”.  

Este enorme resultado, claro, já animou grande parte do público brasileiro na torcida do Oscar 2026. Será que teremos uma repetição de toda a euforia e torcida como vivemos com “Ainda Estou Aqui”?  

Neste novo vídeo do Cine Set, eu analiso o que podemos esperar de “O Agente Secreto” na Academia. 

A SELETIVA BRASILEIRA

Antes de falar de “O Agente Secreto” no Oscar, primeiro precisa-se analisar a seletiva brasileira. A Academia de Cinema do país deve escolher entre setembro e outubro qual filme irá representar o Brasil no Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional. E não acho que será uma escolha tão previsível como parece. 

Claro que as conquistas de “O Agente Secreto” o colocam na dianteira pelo fato do Festival de Cannes ser o mais prestigiado do mundo. Dois prêmios, então, são um grande passo. Mas, o próprio Kleber Mendonça Filho, sabe que há riscos: em 2019, “Bacurau”, ao lado de “Os Miseráveis”, conquistou o Grande Prêmio do Júri, espécie de terceiro lugar do evento francês, mas, foi preterido por “A Vida Invisível”, de Karim Ainouz, o qual venceu a Mostra Un Certain Regard, também em Cannes. 

 

Neste ano, dois outros candidatos chegam com boas chances: “O Último Azul” conquistou o segundo lugar da Berlinale e conta com Rodrigo Santoro, astro conhecido de Hollywood, no elenco, além de ter a Amazônia como tema. Já “Vitória” foi um dos grandes sucessos do cinema brasileiro neste primeiro semestre e pode surfar na onda da indicação de Fernanda Torres ao trazer a mãe Fernanda Montenegro de protagonista.  

“O Último Azul” não vejo como ameaça para “O Agente Secreto”, mas, “Vitória” com certeza. Igual o longa com o Wagner Moura, o drama do Andrucha Waddington já possui distribuição nos EUA garantida, no caso, a Sony Pictures Classics, a mesma de “Ainda Estou Aqui”.  

A força da Fernandona e da própria Globo somado ao sucesso de público podem levar a Academia Brasileira de Cinema a escolher “Vitória” em vez de “O Agente Secreto”. Lembraria bastante o que aconteceu com a França para o Oscar 2024 em que o país optou por “O Sabor da Vida” em vez de “Anatomia de uma Queda”, ganhador da Palma de Ouro no ano anterior.  

Ainda que possa até chegar como favorito, “O Agente Secreto” corre risco sim de ser preterido. 

 DISPUTA EM MELHOR FILME INTERNACIONAL

Agora, se tudo der certo e o filme do Kleber Mendonça Filho for o escolhido brasileiro para Melhor Filme Internacional, sinto que podemos ficar muito perto da vaga de novo da categoria e até sonhar em ganhá-la. 

Além da distribuição internacional garantida pela Neon, fundamental para uma visibilidade importante na indústria, “O Agente Secreto” se beneficia tanto dos dois prêmios em Cannes quanto ter Wagner Moura como protagonista, uma estrela em alta dentro do cinema norte-americano. Ser um thriller político que dialoga com os suspenses dos anos 1970 a partir de uma temática conhecida sobre o Brasil, especialmente após o sucesso de “Ainda Estou Aqui”, favorece demais ao longa. 

Apesar das quase 3h de duração, “O Agente Secreto” possui um estilo mais pop e acessível ao grande público do que, por exemplo, o alemão “Sound of Falling”: a produção de Masha Schilinski ficou com o Grande Prêmio do Júri presidido por Juliette Binoche, porém, segundo a crítica internacional, é uma obra de um perfil mais hermético, levando ao famoso ame-o ou deixe-o. 

Já o vencedor da Palma de Ouro, “A Simple Accident” pode encontrar dificuldades de ser o selecionado do Irã para o Oscar 2026. Afinal, será que a comitiva responsável pela escolha do país optará por uma produção que faz duras críticas ao regime ditatorial? A Neon, claro, poderá procurar alternativas igual ocorreu com “A Semente do Fruto Sagrado” que encontrou abrigo na Alemanha, mas, acho difícil o raio cair no mesmo lugar duas vezes. A possibilidade, talvez, seja buscar as categorias principais sem passar por Melhor Filme Internacional. 

Dos candidatos premiados em Cannes, somente “Sirât” parece um rival forte para desbancar “O Agente Secreto”. O longa espanhol, também vencedor do Grande Prêmio do Júri, traz como produtor executivo ‘apenas’ Pedro Almodóvar. A obra arrebatou o festival na primeira exibição com sua pegada rave no deserto, emulando “Mad Max” em uma história familiar.  

Se o francês “Alpha”, da Julia Ducournau, dá para descartar desde já pela recepção negativa, fique de olho no japonês “Renoir” que, apesar de sair sem prêmios, recebeu muitos elogios. Não duvido que possa encontrar espaço no Oscar. “Two Prosecutors” também é outro candidato que pode beliscar uma coisa na Academia, caso seja o escolhido da Alemanha, França ou até da Ucrânia, país natal do diretor. 

 CATEGORIAS PRINCIPAIS

Mas, dá sim para sonhar com “O Agente Secreto” indo além no Oscar 2026. Se nos prêmios técnicos, Hollywood não costuma ser tão generosa em categorias como design de produção ao optar pelos grandes longas norte-americanos, há caminhos possíveis nas categorias principais.  

“O Agente Secreto” se credenciou em quatro delas: Roteiro Original pode ser uma alternativa para caso Kleber Mendonça Filho não fure o bloqueio em Melhor Direção. Foi o que aconteceu nos últimos anos com Aaron Sorkin, de “Os Sete de Chicago“, Adam McKay, por “Não Olhe para Cima”, Celine Song, de “Vidas Passadas” e o Jesse Eisenberg, de “A Verdadeira Dor“. 

Kleber, porém, pode sim sonhar em chegar entre os finalistas de Melhor Direção. A dupla conquista de “O Agente Secreto” coloca um holofote enorme para o pernambucano. A internacionalização da Academia mostra seus maiores feitos justo em Melhor Direção com as indicações do sul-coreano Bong Joon-Ho, do dinamarquês Thomas Vintenberg, do japonês Rysysyke Hamaguchi, do sueco Ruben Ostuland, dos franceses Jacques Audiard, Justine Triet e Coralie Fargeat. 

A disputa aqui pode ser justamente contra Jafar Panahi e todo peso da perseguição política sofrida ao longo de uma vida no Irã. Ainda assim, vejo Kleber no páreo. 

 

E, claro, tem Wagner Moura: a aclamação após a sessão de “O Agente Secreto” deu a demonstração clara de que como o baiano está altamente prestigiado no mercado internacional. Acumulando participação em importantes filmes e séries norte-americanas, ele chega como um nome conhecido da indústria para a temporada de premiações.   

O grande empecilho para o Wagner é a categoria de Melhor Ator, infelizmente, a mais fechada das principais para atuações vindas de outro idioma que não o inglês. A última indicação do tipo foi com o Antônio Banderas falando 100% espanhol com “Dor e Glória” em 2020. Antes dele, foi o Javier Bardem com “Biutfiul” em 2011. Dois astros gigantescos do cinema mundial com passagens marcantes por Hollywood.  

Das boas coincidências, pelo menos, adivinha quem foi o último ganhador de Melhor Ator de Cannes indicado ao Oscar da mesma categoria? Sim, o Antonio Banderas. São os sinais. 

Estando no páreo nestas categorias, fica inevitável “O Agente Secreto” se tornar um candidato ao Oscar de Melhor Filme. O maior problema é a disputa interna na Neon, afinal, o estúdio também distribui “Sentimental Value” nos EUA, hoje, o grande filme que saiu de Cannes para a temporada de premiações.