Caio Pimenta analisa os grandes candidatos e os fracassos iniciais rumo ao Oscar 2026.

FESTIVAIS – SUNDANCE, BERLIM, CANNES

Começando pelo circuito dos festivais, tivemos três grandes eventos no primeiro semestre. Atropia conquistou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance. Esta é a mesma honraria obtida por Coda, Minari, Whiplash, Preciosa, Indomável Sonhadora e Inverno da Alma.

Dirigido e roteirizado por Hailey Gates, Atropia traz uma história bem inventiva ao apresentar uma atriz iraquiana que trabalha nos EUA em um centro de treinamento do exército que simula o país natal dela. Mirando o Oscar, a situação do filme é delicada, pois até agora não conseguiu um distribuidor forte. Sem isso, pode acabar fora das janelas estratégicas dos festivais do segundo semestre.

É uma situação diferente de Twinless, vencedor do prêmio do público. A produção foi adquirida pela Lionsgate e pela Roadside Attractions. O maior destaque do filme, sem dúvida, está em Dylan O’Brien, que interpreta gêmeos — sendo que um deles está em luto pela morte do irmão. Um papel premiado pelo júri em Sundance, mas que ainda precisará de uma campanha forte para alcançar alguma visibilidade. No momento, parece difícil imaginar uma vaga no Oscar.

Vale ficar de olho em Sorry, Baby: o drama dirigido, roteirizado e estrelado por Eva Victor recebeu o prêmio de melhor roteiro e foi disputado por Neon, MUBI e A24 — que acabou adquirindo os direitos de distribuição nos EUA por US$ 8 milhões. No longa, Eva interpreta uma mulher que passa por uma agressão sexual e tenta se recuperar, mas sente que o mundo seguiu em frente e ela ficou.

Naomi Ackie e Lucas Hedges, indicado ao Oscar por Manchester à Beira-Mar, também estão no elenco do filme produzido por Barry Jenkins. Tem tudo para ser o filme independente da temporada.

Já a Berlinale viu seus dois principais vencedores em situação complicada rumo ao Oscar: premiado com o Urso de Ouro, Dreams poderia ser o candidato da Noruega, não fosse Valor Sentimental ter tido uma estreia avassaladora em Cannes. Para piorar, o fato de encerrar uma trilogia que ainda não chegou ao Oscar também atrapalha suas chances.

O Último Azul, de Gabriel Mascaro, também pode lamentar. Seria o candidato natural do Brasil ao Oscar após o Urso de Prata. No entanto, a força de O Agente Secreto em Cannes o coloca como segunda força na disputa pela vaga nacional, prevista para o segundo semestre.

Das possibilidades da Berlinale para as categorias principais, temos Rose Byrne, vencedora de Melhor Atriz por If I Had Legs I’d Kick You.

O drama, também distribuído pela A24, precisará lutar contra o histórico: a última vez que uma atuação premiada na Alemanha conseguiu chegar ao Oscar foi com Charlotte Rampling, por 45 Anos, em 2015.

Tudo bem que Sebastian Stan ficou no radar da temporada passada com Um Homem Diferente, mas a distância entre os dois eventos atrapalha demais a campanha.

Encerrando Berlim e fazendo um gancho com Cannes, temos Richard Linklater.

O norte-americano lançou Blue Moon na Alemanha e Nouvelle Vague na França. Foi o primeiro que mais chamou atenção, com Ethan Hawke bastante elogiado e já cotado para Melhor Ator, além de Andrew Scott, premiado na Berlinale, surgindo como possibilidade real em Ator Coadjuvante. O longa tem distribuição da Sony Pictures Classics nos EUA.

Já a homenagem ao movimento cinematográfico francês foi recebida com simpatia, mas sem causar grandes comoções. Nouvelle Vague, porém, foi adquirido pela Netflix e pode buscar uma recuperação nos eventos do segundo semestre para se colocar no jogo nas categorias principais.

No máximo, é uma possibilidade em Filme Internacional — isso se a França topar ser representada por um filme dirigido por um norte-americano como Linklater.

Josh O’Connor, com The Mastermind e History of Sound, também não se deu muito bem em Cannes, assim como Eddington, de Ari Aster.

Jennifer Lawrence foi bastante elogiada, mas as primeiras apostas da imprensa norte-americana rumo ao Oscar, somadas à derrota dela em Melhor Atriz por Die, My Love, deixam dúvidas sobre a real força do filme na temporada.

Será preciso capitalizar o nome dela para fortalecer o longa de Lynne Ramsay.

Premiado com a Palma de Ouro, It Was Just an Accident é um candidato natural nas categorias de Melhor Filme, Direção (com Jafar Panahi) e Roteiro Original.

Já Valor Sentimental é o provável carro-chefe da Neon, com força nas principais categorias: Melhor Filme, Direção com Joachim Trier e Roteiro Original, além de ter ótimas chances em Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Melhor Atriz (Renate Reinsve) e Melhor Atriz Coadjuvante (Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas).

E claro, há O Agente Secreto: o suspense brasileiro cresceu bastante ao ser premiado duas vezes em Cannes.

A maior chance, neste momento, reside em Wagner Moura, cujo prestígio pode levá-lo a Melhor Ator. Kleber Mendonça Filho também está no páreo e uma indicação a Melhor Direção não seria surpresa.

Com isso, pensar em Melhor Filme é mais do que possível.

CIRCUITO COMERCIAL

Por fim, hora de falar do circuito comercial. Antes de abordar os que ainda podem chegar, vale lembrar dos que já ficaram pelo caminho.

Mickey 17, primeiro filme de Bong Joon-ho após Parasita, enfrentou uma série de atrasos, problemas nos bastidores e um lançamento mal planejado pela Warner, muito próximo da estreia no streaming.

Ainda que seja mais uma boa sátira ao capitalismo, a ficção científica com Robert Pattinson está nitidamente abaixo do nível da filmografia do sul-coreano.

Se Tempo de Guerra não fez nem um terço do frisson de Guerra Civil, O Esquema Fenício não saiu da bolha dos fãs de Wes Anderson — algo perceptível na recepção fria tanto nas bilheterias quanto em Cannes.

Toda a expectativa em torno de Os Materialistas acabou frustrada: a produção virou alvo de críticas nas redes sociais e a recepção da crítica foi morna, mesmo com a reunião de Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans. Tende a ser esquecida.

Falando ainda de fracasso, Elio evidencia a grave crise criativa na Pixar. Se os cinemas europeu ou asiático estiverem em um ano forte, o estúdio pode ficar de fora da disputa com essa animação bastante fraca.

Dos blockbusters lançados até agora em 2025, o contestado Branca de Neve deve, no máximo, disputar categorias como Figurino ou Direção de Arte, enquanto Minecraft, Como Treinar Seu Dragão e Thunderbolts miram em Efeitos Visuais.

Missão: Impossível – O Acerto Final foi o menos celebrado dos últimos filmes de Ethan Hunt, o que praticamente eliminou as chances de Tom Cruise repetir o sucesso de Top Gun: Maverick. No máximo, há possibilidades nas categorias de Som e Efeitos Visuais.

Já F1 se coloca na dianteira em categorias como Melhor Som, Montagem, Design de Produção, Efeitos Visuais e Direção de Fotografia.

Nessas cinco, o filme aparece como favorito em ao menos três. Essa força técnica pode permitir que o longa sonhe com uma vaga em Melhor Filme e até com Joseph Kosinski em Direção.

Será difícil porque o filme não foi unanimidade junto à crítica e tem um claro tom publicitário da Fórmula 1, mas a chance existe.

A Vida de Chuck é o mistério do ano até agora: a Neon fez um lançamento tímido para o vencedor do Festival de Toronto 2025, e o filme arrecadou apenas US$ 6 milhões em um mês.

Por um lado, a fantasia estrelada por Tom Hiddleston pode crescer e se tornar uma descoberta ao estilo de Coda; por outro, fica a dúvida se a Neon investirá na campanha de uma obra que pode ter perdido a janela ideal da temporada de premiações.

E, claro, o filme que mais se credenciou ao Oscar 2026 no circuito comercial não poderia ser outro.

No TOP 10 das bilheterias dos EUA, Pecadores é o único longa que não é continuação, adaptação de game ou remake. A produção conquistou o público, a crítica e a indústria de forma arrebatadora, provocando intensos debates e uma recepção calorosa. Na minha visão, não apenas está garantido entre os 10 finalistas de Melhor Filme, como tem grandes chances de fazer a Academia premiar pela primeira vez um diretor negro.

Michael B. Jordan e Delroy Lindo estão fortes nas disputas de atuação, a vaga em Roteiro Original parece bem encaminhada, e considero Pecadores favorito em Melhor Direção de Casting.

Se One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, não vingar — como já se teme em Hollywood —, a Warner não hesitará em apostar todas as fichas em Pecadores. E nem mesmo o fato de ser um filme de terror com zumbis deve ser um problema: a vitória de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, o sucesso de A Substância e a pauta racial tão bem desenvolvida por Ryan Coogler podem vencer resistências em uma Academia cada vez mais disposta a se modernizar.