De Wagner Moura a Leonardo DiCaprio, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Filme.

POUCAS CHANCES

Como eu sempre faço, começo falando da turma com poucas chances de indicação. Dois ganhadores da categoria não devem voltar no ano que vem.  

“Malcolm X” deve seguir sendo a única parceria do Denzel Washington com o Spike Lee indicada ao Oscar de Melhor Ator. Apesar de muito bem em “Luta de Classes”, o astro não foi tão unânime junto ao público e à crítica como em outros projetos. Nem a homenagem no Festival de Cannes com uma Palma de Ouro honorária será capaz de mudar a situação.  

Já o Matthew McConaughey tinha tudo para vingar com “O Ônibus Perdido”, afinal, o heroísmo da história real de um motorista de ônibus que salva mais de 20 crianças de um incêndio florestal era perfeita para o Oscar. A superprodução do Paul Greengrass, infelizmente, não decolou e somado ao excesso com que o protagonista é retratado deixam o texano longe da indicação. 

Com “La Grazia”, o astro italiano Toni Servillo está no jogo após a vitória em Melhor Ator no Festival de Veneza. Nos últimos anos, Joaquin Phoenix com “O Mestre”, Willem Dafoe em “No Portal da Eternidade” e Colin Farrell com “Os Banshees de Inisherin” apareceram no Oscar depois de serem premiados na Itália. O problema aqui, porém, é a alta concorrência de candidatos internacionais com filmes mais prestigiados na temporada. Precisa remar demais para ultrapassar todos eles. 

O Channing Tatum coleciona elogios pelo surpreendente “O Bom Bandido”, mas, em uma temporada tão concorrida, não acredito que ele chegue tão longe. No máximo, tem a possibilidade de concorrer ao Globo de Ouro de Ator em Comédia/Musical. 

O Russell Crowe está transformado visualmente para interpretar Hermann Göring, um dos líderes nazistas, em “Nuremberg”. É um bait que sempre costuma chamar a atenção da Academia. O drama de tribunal, entretanto, não convenceu nos festivais do segundo semestre para alavancar as possibilidades do neozelandês. 

Para piorar, a Sony Pictures Classics teve a “brilhante” ideia de fazer campanha para o Oscar tanto para o Russell Crowe quanto para o Rami Malek, co-protagonista do filme. A chance de dar errado é imensa, pois, você divide votos e cria uma competição interna desnecessária. 

CHANCES MÉDIAS

Hora de falar do time com chances médias de aparecer no Oscar 2026 de Melhor Ator. Três apostas da Netflix terão dificuldades de vingar na categoria. 

Havia uma grande expectativa para o Colin Farrell vingar com “Balada de Um Jogador”. Se sobraram elogios para o astro irlandês como um apostador em apuros em Macau, o filme ficou bem abaixo dos últimos trabalhos do diretor Edward Berger, os premiados “Nada de Novo no Front” e “Conclave”. Tudo indica que não será desta vez que ele chegará na categoria novamente. 

Já o Oscar Isaac aparece como o protagonista de “Frankenstein”. A superprodução do Guillermo del Toro pode até chegar com grandes possibilidades de acumular indicações nas categorias técnicas, mas, o mesmo não deve se repetir nas áreas de atuação. E nem a narrativa de ser um dos grandes atores do cinema norte-americano da atualidade sem uma indicação ao Oscar deve mudar o cenário. 

“Train Dreams” virou um queridinho discreto da crítica e do circuito de festivais. Caso se torne uma surpresa da temporada crescendo na hora certa, o Joel Edgerton iria no embalo e poderia obter a última vaga. Ainda assim, parece improvável. 

O Lee Byung-hun é outro candidato internacional no páreo: “No Other Choice” caiu no gosto do público da América Norte ao vencer o prêmio de público para produções não faladas em inglês no Festival de Toronto. Se o suspense do Park Chan-Wook conseguir chegar forte ao Oscar acumulando indicações em outras categorias, há uma possibilidade dele ficar no páreo. O problema é fazer a Neon querer tirar o foco do Wagner Moura para apostar no sul-coreano. É correr o risco do certo pelo duvidoso.  

O Hugh Jackman joga as fichas com “Song Sung Blue – Um Sonho a Dois”. No musical, ele faz parte do duo Lightning and Thunder ao lado de Kate Hudson. Novamente, o eterno Wolverine aposta no talento vocal indiscutível que possui, além do carisma de sempre.  

“Song Sung Blue – Um Sonho a Dois”, entretanto, deixou para a reta final do período de festivais para ser lançado – a produção será o filme de encerramento do AFI Fest no fim de outubro.  

A estratégia da Focus Features pode ser boa para o Hugh Jackman se impulsionar mais próximo dos prêmios da crítica, porém, a força da lenda Daniel Day-Lewis em “Anemone” pode simplesmente deixá-lo sem espaço na competição interna do estúdio.  

GRANDES CHANCES

Subindo mais um degrau, chegou a hora da turma que tem grandes chances de indicação, mas, que vai precisar do tropeço de um dos favoritos para ficar entre os finalistas. 

O Brendan Fraser era apontado como nome forte em Melhor Ator, porém, a exibição de “Família de Aluguel” em Toronto decepcionou bastante. O astro até pode chegar pelo prestígio recente graças “A Baleia”, outra produção que dividiu bastante, mas, em que ele se sobressaia. Desta vez, porém, o raio não deve cair no mesmo lugar. 

Até porque o Will Arnett chega para ultrapassá-lo dentro da Searchlight Pictures com “Is This Thing On?”. O Bradley Cooper, aliás, é um bom diretor para emplacar seus protagonistas no Oscar: foi assim com ele mesmo e Lady Gaga em “Nasce uma Estrela” e novamente com “Maestro”, desta vez, ao lado da Carey Mulligan.  

 O Will Arnett traz o prestígio de séries consagradas como “Arrested Development” e “BoJack Horseman” encontrando a primeira grande chance de aparecer no Oscar em “Is This Thing On?”.  

A dimensão exata da força do Arnett será conhecida no Festival de Nova York, onde o filme do Bradley Cooper será lançado. É um nome para ficar bastante de olho que crescer sem ninguém esperar. 

Também no time das surpresas está o Ethan Hawke. Em “Blue Moon”, o lendário letrista Lorenz Hart, lamentando ter sido abandonado pelo antigo parceiro Richard Rogers após o sucesso do inovador musical “Oklahoma!”. O ator deve ser o principal nome da Sony Pictures Classic na disputa em um filme que está sendo redescoberto por Hollywood após a passagem elogiado no já distante Festival de Berlim. 

Curioso que pouco se fala dele, mas, o Ethan Hawke subiu muito nas previsões dos principais veículos norte-americanos. “Blue Moon” é uma produção que tentará crescer justamente pelos seus protagonistas e, talvez, alcance isso começando por aqui. 

Em “Pecadores”, Michael B. Jordan lidera um dos filmes mais prestigiados da temporada fazendo gêmeos. Papel duplo, desafiador de um ator querido pelo público, mas, até hoje nunca indicado ao Oscar. O problema é que os protagonistas de filmes de ação não vêm ganhando espaço em Melhor Ator: foi assim com o Tom Cruise em “Top Gun” e Timothée Chalamet em “Duna” recentemente. De filmes de terror, pior ainda: a última vez foi o Daniel Kaluuya de “Corra”.  

Quer complicar ainda mais? A última vez em que um ator interpretando gêmeos concorreu na categoria foi com o Nicolas Cage em “Adaptação” a mais de 20 anos. Definitivamente, as estatísticas jogaram contra o Michael B. Jordan. 

E o George Clooney? A princípio, seria um nome certo e até candidato à vitória se “Jay Kelly” fosse uma produção indiscutível. A produção do Noah Baumbach, entretanto, ainda não se firmou totalmente mesmo com a recuperação após Veneza nos festivais da América do Norte. Atrapalha ainda a sensação de que o astro está novamente fazendo uma versão de si mesmo com aquele charme típico dele.  

Com a provável ida do Paul Mescal, de “Hamnet” para coadjuvante, a Focus Features confirmou o Jesse Plemons na busca pela primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator com “Bugonia”. Aparecer na categoria seria um reconhecimento da parceria dele com o Yorgos Lanthimos que já rendeu premiação ao texano em Cannes por “Tipos de Gentileza”, além de consolidá-lo definitivamente como um astro capaz de liderar projetos e não mais um coadjuvante de luxo.  

Poderia, inclusive, uma forma de “Bugonia” ter espaço nas categorias de atuação, caso a Academia queira dar um tempo na Emma Stone e não a indicar mais uma vez em Melhor Atriz. O Plemons seria uma escolha perfeita para isso. 

“Coração de Lutador” é o filme perfeito para fazer The Rock chegar pela primeira vez no Oscar: tem o combo transformação visual, entrega física e a disposição de sair da zona de conforto para encarar o maior personagem dramático da carreira. Casos de atores estigmatizados nos papeis certos conseguirem chegar à festa da Academia são comuns na história: Sylvester Stallone com “Rocky”, Mickey Rourke com “O Lutador” e Brendan Fraser, de “A Baleia” são ótimos exemplos.  

Chama também a atenção que “Coração de Lutador” depende muito de Dwayne e Emily Blunt, colega dele de elenco, para conseguir tração nas demais categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme. A questão, porém, pode ser derrotar o preconceito que muita gente tem com The Rock e a própria temática do longa sobre o UFC espantar os votantes da Academia.  

 FAVORITOS ÀS INDICAÇÕES

A partir de agora, eu trago os cinco nomes que acredito que estarão entre os finalistas. Isso, claro, levando em consideração o atual momento da corrida.  

Não jamais subestime Daniel Day-Lewis: o britânico estava quietinho, mas, a estreia de “Anemone” no Festival de Nova York deixou muito claro que ele é um nome fortíssimo na categoria. A empolgação das redes, sempre ela, já até chegam a considerar que ele pode vencer pela quarta vez Melhor Ator. Se isso pode parecer exagero, a sétima indicação da carreira está cada vez mais próxima. 

A aclamação de “Uma Batalha Após a Outra” deixa o Leonardo DiCaprio também muito próximo dos finalistas. Em uma atuação completa capaz de entregar tanto no humor como no drama quanto nas cenas de ação, o astro pode chegar mesmo com um personagem para lá de incomum, um maconheiro revolucionário perdidão em meio ao caos norte-americano.  

Agora, vale um alerta: o Leonardo DiCaprio traz um histórico de indicações consideradas certas, mas, não concretizadas. Basta lembrar o que aconteceu com “Assassino da Lua das Flores” em que foi o único do trio de protagonistas fora do Oscar. Parece loucura cogitá-lo fora da premiação neste momento de adoração de “Uma Batalha Após a Outra”, mas, considero muito possível disso se repetir. 

Depois da consagração com “O Urso”, o Jeremy Allen White prepara o salto para o Oscar com “Springsteen”. Apesar da produção passar longe daquelas cinebiografias eletrizantes sobre grandes nomes da música, o ator encarna novamente aquela figura atormentada, mas, contida. Fora os grandes momentos de apoteose dos shows. Pelo perfil do personagem, acho improvável demais que fique de fora dos finalistas. 

“Marty Supreme” nem estreou, ninguém viu, mas, a imprensa internacional não duvida que Timothée Chalamet chega como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Ator. O astro constrói ano após ano uma narrativa de que está chegando a hora de premiá-lo – isso mesmo quase 30 anos de idade.  

Se bateu na trave com “Um Completo Desconhecido” em um ano que emplacou dois filmes na categoria máxima da premiação, a tendência é que agora, se “Marty Supreme” cumprir tudo o que se espera dele, não haverá como o Chalamet perder este Oscar. 

 

E sim, Wagner Moura está muito perto da indicação por “O Agente Secreto”. O baiano é o grande candidato internacional na temporada em que as produções não faladas em inglês terão o maior destaque da história da premiação. Cannes, Telluride, Toronto e Nova York foram unânimes em apontá-lo com o grande destaque do candidato brasileiro com elogios impressionantes da crítica.   

Wagner ainda se mostra muito disposto a fazer campanha, participando da tour do filme ao redor do planeta, fora que conta com o apoio sempre importante das redes sociais, fundamentais para os jornalistas dos EUA darem visibilidade para ele e “O Agente Secreto”.  

Basta ver a repercussão da matéria da Variety apontando o brasileiro como possível vitorioso assim como a Awards Watch colocar a foto dele em “O Agente Secreto” na capa do artigo sobre as previsões para a categoria. Como sempre digo, visibilidade nunca é demais em temporada de premiações.  

Nesta mesma altura do campeonato, o Wagner Moura possui muito mais força do que a Fernanda Torres com “Ainda Estou Aqui”. Claro que isso precisa ser mantido até janeiro com as indicações e até a noite do Oscar no distante 15 de março. Vale destacar também que Melhor Ator tem uma resistência maior a atuações vindas de filmes de língua não-inglesa do que Melhor Atriz, Direção e Filme, por exemplo.  

Com a concorrência pesada deste ano em que Melhor Ator parece mais disputado do que Melhor Atriz e “O Agente Secreto” ser uma produção legendada com 2h40 de duração, o Wagner Moura estará sempre sob risco de ficar de fora, mas, acredito que a atuação brilhante dele será capaz de quebrar barreiras. E se ele chegar entre os finalistas, não será apenas para disputar; alas internacionais junto com setores mais artísticos de Hollywood podem impulsioná-lo à vitória.