De Tânia Maria a Leandra Leal, Caio Pimenta analisa quem surpreendeu e quem foi esnobado nas indicações ao Prêmio Grande Otelo 2026.
SURPRESAS DAS INDICAÇÕES
Como sempre acontece, as listas de surpresas são bem menores do que esnobados. No Prêmio Grande Otelo 2026, as novidades dos indicados foram bem interessantes, mas não positivamente.
Melhor Ator não tinha como fugir de Wagner Moura, Rodrigo Santoro, Jesuíta Barbosa e Antonio Pitanga. A surpresa mesmo foi Ary Fontoura: o veterano conseguiu uma indicação por “Velhos Bandidos”. Foi a única do filme para além de Melhor Comédia.
Cá entre nós, foi um baita exagero da Academia Brasileira de Cinema: o Ary Fontoura é um grande ator, sujeito adorável, sucesso nas redes sociais, mas indicá-lo vai muito além da conta. “Velhos Bandidos” passa longe de ser um trabalho marcante na carreira dele. Fora que se é para indicá-lo, por que não fazer o mesmo com o restante do elenco?
Em Roteiro Adaptado, “O Advogado de Deus” conseguiu uma indicação sabe Deus como. A produção é mais uma da linha espírita dirigida e roteirizada pelo Wagner de Assis e não chega a trazer nada de novo ao universo destas adaptações.
Nada, entretanto, foi mais polêmico que a categoria de Melhor Atriz. Ali, tem surpresas e esnobadas de sobra.
Apenas a Denise Weinberg, de “O Último Azul”, era nome considerado na disputa. Jamilli Correa se beneficiou pelo excelente desempenho de “Manas” e conseguiu a bem-vinda indicação. Camila Pitanga foi uma surpresa mais pelo foco de “Malês” estar no pai dela e ainda assim conseguir ficar entre as finalistas. Já Carolina Dieckmann obteve a indicação honrosa para “(Des)Controle”.
O nome mais estranho de Melhor Atriz, sem dúvida, foi Tânia Maria. Claro que o destaque de “O Agente Secreto” precisava ser indicada. A questão central, porém, é porque aqui e não em coadjuvante. Apesar de ser a personagem feminina de maior destaque do filme, considerar dona Sebastiana protagonista não faz o menor sentido pelo tempo de tela. Foi disparada a decisão mais sem sentido da Academia Brasileira de Cinema.
A presença de Tânia Maria em Melhor Atriz abriu espaço para Hermila Guedes, também de “O Agente Secreto”, ser indicada em coadjuvante. Afinal, pela lógica, a intérprete Dona Sebastiana estaria na categoria ao lado de Alice Carvalho, também indicada.
ESNOBADAS DAS INDICAÇÕES
Esta bagunça levou o Prêmio Grande Otelo a cometer esnobadas complicadas. Leandra Leal está sublime em “Os Enforcados”, mas ficou de fora. Talvez o peso de já ter vencido a categoria por “O Lobo Atrás da Porta”, parceria anterior dela com o diretor Fernando Coimbra, pode ter pesado na escolha.
Pior mesmo foi Shirley Cruz não aparecer em Melhor Atriz com o excelente desempenho em “A Melhor Mãe do Mundo”. Como um desempenho tão visceral, de entrega física absurda e comovente a seu modo não apareceu entre as finalistas? Um dos maiores erros das indicações.
Nesta confusão de Atriz principal e coadjuvante, a Bella Campos, de “Cinco Tipos de Medo”, poderia ter espaço facilmente na disputa.
Aliás, o Prêmio Grande Otelo vacilou feio com o suspense do Bruno Bini: ganhadora do Festival de Gramado de 2025, a produção conseguiu espaço apenas em Roteiro Adaptado e Montagem. Tinha espaço fácil em Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante com Xamã e Som.
Para fechar as atrizes, já que o Ary Fontoura está indicado a Melhor Ator por “Velhos Bandidos”, vejo a esnobada da Bruna Marquezine como um erro. Considero ela, de longe, a melhor coisa do filme sendo divertida, sexy, descontraída e valorizando estar ao lado daquele grande elenco.
Melhor Ator Coadjuvante teve nove indicados, sendo três de “O Agente Secreto”. Mesmo com estes números gigantes, eu esticava a lista mais um pouquinho, afinal, as atuações do Roney Villela e do Kaiony Venâncio. Quando ambos aparecem em cena, dá um aperto no coração e temor pela vida do personagem do Wagner Moura. São atuações excelentes e fundamentais para o suspense do Kleber Mendonça Filho.
Certos filmes ficaram bem aquém em termos de indicações: “Malês” aparece apenas em quatro categorias, sendo esnobado em Melhor Filme e, principalmente, Roteiro Original. Manuela Dias não vive seus melhores momentos. Tal qual “Cinco Tipos de Medo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis” merecia ter sido mais valorizado: apenas três indicações – Melhor Direção Estreante, Atriz Coadjuvante com Camila Márdila e Roteiro Original ficou pouco.
“Sonhar com os Leões” pagou o preço da abordagem polêmica para um tema tabu. Foi indicado apenas a Melhor Longa de Comédia quando poderia ter tido Denise Fraga em Melhor Atriz e também uma vaga em Roteiro Original. O cinema de gênero não teve espaço desta vez no Prêmio Grande Otelo e, com isso, “Enterre Seus Mortos” apareceu apenas em Roteiro Adaptado.
A última esnobada passou quase despercebida, mas chamou muito a minha atenção: “Perrengue Fashion” fora de Melhor Filme de Comédia. Foi uma escolha ousada da Academia Brasileira de Cinema visto que se trata de uma categoria que a força das bilheterias tem um peso quase sempre decisivo. Ainda assim, a produção com a Ingrid Guimarães não está na lista.
É uma decisão acertadíssima pelo fato de “Perrengue Fashion” ser uma comédia para lá de equivocada reproduzindo os piores estereótipos sobre a Amazônia. Tenho verdadeiro pavor a este filme como vocês podem ver na minha crítica no site do Cine Set.

















