Caio Pimenta analisa os principais legados do Oscar 2025 para o futuro do evento da Academia.

1. INTERNACIONALIZAÇÃO DA ACADEMIA SURTINDO EFEITO

O primeiro legado é como a internacionalização dos votantes da Academia mostra cada vez mais efeito. Nunca as produções vindas do exterior tiveram tanta força como no Oscar 2025.

Este foi o segundo ano consecutivo de duas produções de língua não inglesa em Melhor Filme. Desta vez, porém, a Academia abriu as portas para a América do Sul através do Brasil com “Ainda Estou Aqui”. O drama de Walter Salles ainda obteve uma indicação a Melhor Atriz com Fernanda Torres, ao lado de outra intérprete que não falava inglês, no caso, Karla Sofia Gascón, de “Emilia Pérez”.

Tivemos dois cineastas franceses – Jacques Audiard e Coralie Fargeat – nomeados em Direção. Em duas categorias importantes, Hollywood viu seus principais candidatos serem derrotados: “Robô Selvagem” e “Divertida Mente 2” sucumbiram para o modesto “Flow”, da Letônia, enquanto o palestino “Sem Chão” levou Melhor Documentário. “El Mal” marcou a segunda vitória em três anos de uma canção original não escrita em inglês — a primeira foi “Naatu Naatu”, de “RRR”.

Para completar, das três categorias de curtas, duas foram vencidas por filmes de língua não inglesa: nas animações, o ganhador foi o iraniano “In the Shadow of the Cypress”, enquanto o holandês “I’m Not a Robot” venceu entre as ficções em live-action.

2. DEPENDÊNCIA INTERNACIONAL

A tendência é que isso se expanda mais nos próximos anos, caso, claro, a Academia mantenha a disposição de se internacionalizar cada vez mais. Se, por um lado, pode haver uma reação dos grandes estúdios e parte da classe artística dos EUA temendo perder o protagonismo, por outro, Hollywood e o próprio Oscar percebem que é impossível viver sem o mercado internacional.

As bilheteiras dos principais indicados a Melhor Filme mostram isso: “Anora”, “Duna 2”, “Conclave”, “O Brutalista”, “Ainda Estou Aqui” e “A Substância” fizeram mais de 60% da arrecadação nos cinemas fora dos EUA. Somente Wicked e Um Completo Desconhecido tiveram situação contrária.

A torcida da Letônia inteira por “Flow” e o carnaval no Brasil marcado pela celebração de “Ainda Estou Aqui” e Fernanda Torres mostram o impacto e a relevância do Oscar, algo tão debatido hoje em dia. Não à toa, a festa da Academia registrou o maior número de interações nas redes sociais em relação ao Grammy e ao Super Bowl.

Um único ‘porém’ que faço neste olhar para o cinema internacional é a Academia ter mais cuidado para não cometer gafes como a ausência de Cacá Diegues no In Memoriam. Se o desejo é captar mais este público estrangeiro, é necessário entender a dimensão de certos nomes para a história da Sétima Arte e evitar situações como essa.

3. FORÇA DO FESTIVAL DE CANNES

Neste sentido, ganha cada vez mais força e influência para o Oscar tudo o que acontece no Festival de Cannes.

Pela terceira vez na história, o ganhador da Palma de Ouro alcança Melhor Filme na Academia. “Marty” fez a dobradinha lá nos anos 1950, mas, nesta década, isso aconteceu duas vezes: a primeira com “Parasita” em 2020 e, agora, com “Anora”. Também da Riviera Francesa vieram “A Substância”, “Emilia Pérez”, “O Aprendiz”, “Flow”, “A Garota da Agulha” e “A Semente do Fruto Sagrado”.

Para efeito de comparação, o Festival de Veneza, de onde saíram ganhadores recentes do Oscar como “A Forma da Água” e “Nomadland”, teve apenas “Ainda Estou Aqui” e “O Brutalista” indicados a Melhor Filme.

Vale destacar que quatro dos últimos cinco vencedores da Palma de Ouro foram indicados a Melhor Filme do Oscar: “Parasita”, “Triângulo da Tristeza”, “Anatomia de uma Queda” e “Anora” — a exceção foi “Titane”. Logo, o radar dos principais estúdios mirando a festa da Academia certamente estará ligadíssimo em maio na França. Ah, tem um detalhe: o Cine Set estará lá. Em breve, mais informações.

4. DIVERSIDADE EM PAUTA

Como ocorre desde a crise do #OscarSoWhite e do #MeToo, o Oscar impulsiona a diversidade como uma pauta central do evento. Ainda que esteja longe do ideal, ela segue guiando a Academia.

Nesta temporada, a causa trans foi o centro das atenções com “Emilia Pérez”. O musical francês foi responsável pela primeira indicação de uma atriz trans nas categorias de atuação. Pena que Karla Sofia Gascón tenha estragado tudo. Ainda em Melhor Atriz, tivemos uma intérprete latina e uma negra indicadas. De origem latina, também Zoe Saldaña, ganhadora de Atriz Coadjuvante por “Emilia Pérez”.

Tivemos também a vitória histórica de Paul Tazewell, o primeiro homem negro a ganhar na categoria de Melhor Figurino.

Essa é uma tendência irreversível, mas ainda com uma grande lacuna a ser preenchida: a vitória de um cineasta homem ou mulher negro em Melhor Direção. Ano que vem tem Spike Lee. Então, quem sabe?

5. ACADEMIA DISPOSTA AO RISCO

“Anora” representa uma escolha arriscada da Academia, quando havia filmes de muito maior consenso e com capacidade de gerar menos polêmicas — “Conclave” seria o exemplo perfeito disso.

Levando em consideração a década passada, marcada por vitórias de obras que empalideciam assim que acabava a temporada, nos anos 2020, quatro dos seis vencedores são obras que ficam — para o bem ou para o mal. São os casos dos aclamados “Parasita” e “Oppenheimer” e dos divisivos “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” e, agora, da comédia de Sean Baker.

Todos esses quatro filmes são de cineastas que fazem questão de ter uma linha de trabalho com maior personalidade do que um Michel Hazanavicius, Ben Affleck, Peter Farrelly, Tom McCarthy e outros diretores ganhadores do Oscar na década passada. Se esta for uma tendência a ser perseguida pela Academia, teremos muito mais edições interessantes do que vimos recentemente.