Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2026 nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Roteiro Original.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – CORRENDO POR FORA

Cinco candidatos estão correndo por fora na briga pela vaga de Roteiro Adaptado.  

Ao longo da história do Oscar, apenas cinco adaptações de musicais foram indicadas na categoria sem nenhuma vitória. “O Beijo da Mulher Aranha” e “Wicked: For Good” escalam esta montanha na temporada deste ano. A nova versão assinada por Bill Condon e Terrence McNally do romance de Manuel Puig foca mais na peça da Broadway dando ênfase ao encantamento do cinema sendo menos politizada do que o filme de Hector Babenco. 

Já Winnie Holzman e Dana Fox buscam a indicação pela conclusão de uma adaptação aclamada da Broadway, capaz de divertir, trazer personagens marcantes e ainda analogias sobre tolerância em relação aos diferentes em um universo fantasioso. O encerramento de “Wicked” pode ser uma boa hora da Academia prestigiar a dupla. 

 

Por melhor que seja o trabalho do Mike Flanagan no roteiro da adaptação do romance do Stephen King, “A Vida de Chuck” sofre com o apagamento na temporada de premiações. Com a Neon com candidatos melhores posicionados na categoria, deve ficar mais uma vez esquecido. Situação semelhante enfrentada pelo Richard Linklater com “Nouvelle Vague”; improvável demais a Netflix dar espaço para a produção sobre o clássico “Acossado”. 

O Guillermo Del Toro não é novo nas categorias de roteiro: já foi indicado duas vezes com “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água”. O mexicano tenta novamente com “Frankenstein”, uma adaptação em que ele busca trazer o lado mais dramático da história como revelou em entrevista recente. No momento, a produção da Netflix aparece mais forte para as categorias técnicas, porém, pode crescer na temporada e arrancar a quinta vaga. 

Uma curiosidade é que Frankenstein já apareceu duas vezes no Oscar de Roteiro Adaptado: a primeira com “O Jovem Frankenstein”, do Mel Brooks, em 1975, e mais indiretamente com “Deuses e Monstros”, do Bill Condon. Este último era uma adaptação do romance “Father of Frankenstein”, do Christopher Bram. 

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – GRANDES CHANCES

Hora de falar da turma com grandes chances de indicação. Na minha visão, os próximos cinco filmes concorrem por duas vagas. 

A imprensa norte-americana aposta que “Song Sung Blue” cresça na temporada de premiações sempre colocando a produção estrelada por Hugh Jackman em boa posição. Caso se confirme, o diretor e roteirista Craig Brewer pode se dar bem com a história de dois músicos azarados ficando famosos ao formarem uma banda em tributo ao lendário Neil Diamond. 

Vindos da indicação por “Sing Sing”, a dupla Clint Bentley e Greg Kwedar tentam voltar ao Oscar com “Nos Trilhos do Destino”. A estratégia pode ser a mesma usada neste ano com a presença em Roteiro Adaptado sendo uma forma da Academia reconhecer uma obra que não terá muito espaço em Melhor Filme. 

 

“Springsteen” seria uma aposta mais tradicional do Oscar para a categoria. Tal qual ocorreu em “Um Completo Desconhecido”, indicado neste ano em Roteiro Adaptado, o Scott Cooper foca em um período delicado da vida de Bruce Springsteen, o processo criativo de “Nebraska”, álbum clássico do roqueiro quando ele vive em depressão. O grande ativo aqui é um olhar muito intimista, bastante pessoal de um nome mais do que conhecido da cultura pop do país, fora que poderia prestigiar um cineasta que não terá espaço em Melhor Direção. 

“No Other Choice” pode fazer o mesmo em relação ao Park-Chan Wook, um dos maiores esnobados no século no Oscar. Adaptação do livro The Ax, já levado às telas por Costa-Gavras em “O Corte”, o longa traz uma história inventiva sobre o fantasma do desemprego, um temor enorme dos dias atuais. Carregado de ironia, grandes personagens e ótimas reviravoltas, a produção está muito próxima da vaga. 

A série “Entre Facas e Segredos” é uma queridinha do Oscar: o primeiro filme foi indicado a Roteiro Original, enquanto o segundo conseguiu chegar entre os adaptados. A habilidade do Rian Johnson em construir intrigas e mistérios no melhor estilo de Agatha Christie com uma gama de personagens ricos adicionando ainda contextos sociais de forma elegante são muito sedutores para os votantes. Por tudo isso, “Vivo ou Morto” tem grandes chances de indicação.  

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – MUITO PERTO DA INDICAÇÃO

O próximo candidato está quase no Oscar 2026: “Bugonia” traz para o cinema americano uma versão de “Save the Green Planet!”, sucesso do cinema sul-coreano. Consagrado por “Succession”, o Will Tracy busca a primeira indicação na Academia ao satirizar e radicalizar o mundo corporativo com executivos poderosos e trabalhadores à beira da exaustão. Tudo com muita paranoia e humor. A dramédia do Yorgos Lanthimos pode até não ser o hit que se esperava, mas, acredito que não vai deixar escapar uma vaga praticamente assegurada. 

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – FAVORITOS À VITÓRIA

Nenhum destes candidatos, entretanto, tem chances de vitória. Isso porque o prêmio de Roteiro Adaptado ficará com a Chloé Zhao ou Paul Thomas Anderson. 

A favor da chinesa está o fato de ser uma adaptação mais fiel ao material original base escrito pela Maggie O’Farrell, algo que alas mais conservadoras podem levar em consideração no voto. As relações com “Hamlet”, clássico de William Shakespeare, aliado a forma como Zhao transpõe tudo isso para a tela com o estilo contemplativo e intimista próprios dela são também bons ativos de “Hamnet”. 

Vale lembrar que a Chloé Zhao concorreu em Roteiro Adaptado por “Nomadland”, mas, acabou perdendo para o Florian Zeller de “Meu Pai”. “Hamnet” pode ser a maneira da Academia também prestigiá-la na função após o Oscars de Melhor Filme como produtora e Direção. 

 

Já o Paul Thomas Anderson adota uma abordagem mais livre de “Vineland”, do Thomas Pynchon. O mérito já é imenso pela complexidade das obras do autor e ganha mais força pela maneira como “Uma Batalha Após a Outra” insere na trama todo o caos político e social dos EUA da atualidade. Para completar, mais uma vez, PTA oferece uma gama inacreditável de grandes personagens.  

Roteiro Adaptado tem tudo para ser a grande chave para decifrar o Oscar 2026. Se a Academia quiser ser coração de mãe e premiar todo mundo, a Chloé Zhao sai vencedora aqui e deixa o caminho aberto para o Paul Thomas Anderson em Melhor Direção e Filme. A outra opção é deixar tudo dominado por um único filme, tal qual ocorreu com “Anora”, “Oppenheimer” e “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”.  

 Caso esta seja a tendência, “Uma Batalha Após a Outra” pode se dar melhor até por conta de toda narrativa de que chegou a hora de consagrar o PTA. 

No fim das contas, acho que os indicados serão “Uma Batalha Após a Outra”, “Hamnet”, “Bugonia”, “Vivo ou Morto” e “No Other Choice”. 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL – CORRENDO POR FORA

Passando para Melhor Roteiro Original, a corrida pelo prêmio apresenta um cenário parecido aos adaptados. 

Com poucas chances de aparecerem em Melhor Filme, “Blue Moon”, “Sorry, Baby”, “Is This Thing On?” e “A Hora do Mal” podem encontrar a indicação de consolação em Roteiro Original.

Se o trabalho do Robert Kaplow aborda os bastidores do mundo teatral a partir da relação entre dois nomes importantes do showbusiness norte-americano, tema amado pela Academia, a Eva Victor chega como uma das revelações do ano ao trazer uma das obras mais elogiadas do cinema independente em 2025 com uma narrativa não linear de uma etapa de hiato da vida da protagonista que busca processar o trauma que enfrenta. 

“Is This Thing On?” chega com as forças da dupla Bradley Cooper e Will Arnett no time de quatro roteiristas que apresentam um tema já batido – a separação de um casal -, mas, que pelo universalismo da história, sempre consegue espaço na Academia. O Zach Cregger seria o reconhecimento dele como nome responsável por uma das maiores surpresas de Hollywood no ano, um terror ousado na maneira de apresentar a história e inquietante por tocar em certos pesadelos que assombram muita gente nos EUA. 

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – GRANDES CHANCES

O problema para estes quatro filmes é que há concorrentes mais fortes na frente deles. “Jay Kelly” abre esta turma de candidatos. Pode-se até discutir se o longa da Netflix não engrenou como esperado, mas, duvidar do Noah Baumbach junto aos roteiristas é ignorar o histórico dele: somente na função, o novaiorquino soma três indicações com “A Lula e a Baleia”, “História de um Casamento” e “Barbie”. Ter ao lado a querida Emily Mortimer pode ajudar ainda mais no hype. 

 

“Foi Apenas um Acidente” pode ser a possibilidade da Academia não ignorar o Jafar Panahi caso ele não consiga a indicação a Melhor Direção. A produção iraniana dosa drama e ironia com grandes personagens para abordar o clima político e seus efeitos na sociedade.  

O Irã já é conhecido da categoria de Roteiro Original: em 2012, “A Separação”, do Ashgar Farhadi, concorreu no prêmio, mas, perdeu para “Meia-Noite em Paris”, do Woody Allen. Quem sabe o Jafar Panahi não repita o feito 14 anos depois? 

Voltando ao time dos Noahs, o Noah Oppenheim busca a primeira indicação da carreira com “Casa de Dinamite”. O thriller da Kathryn Bigelow traz a tensão política escalando para o temor de uma tragédia nuclear. A irregularidade como filme foi recebido ao longo da temporada – elogios em Veneza e descrédito em Nova York – deixa um cenário de incerteza sobre as chances aqui em Roteiro Adaptado. 

Ainda assim, é bom lembrar que “Setembro 5” conseguiu uma indicação na categoria neste ano mesmo com o filme esquecido nas demais categorias. A urgência da temática joga a favor de “Casa de Dinamite”. 

O Kleber Mendonça Filho também possui grandes chances de indicação com “O Agente Secreto”. O pernambucano está na mesma situação do Panahi: ser lembrado aqui pode amenizar uma possível esnobada em Direção. O suspense político é disparado o melhor trabalho de Kleber na função ao conseguir retratar os jogos de poder e a dinâmica de um país a partir de subtramas que alimentam e enriquecem a história central do cativante protagonista.  

A grande questão contra “O Agente Secreto” será a forma como os votantes podem ver esta subtramas: não duvido que gere tantas paixões como também gente reclamando de ser desnecessário. A ambição, porém, ninguém pode negar. Acredito mais na surpresa de uma indicação em Direção, mas, o Kleber é potencial candidato em Roteiro Original. 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL – MUITO PERTO DA INDICAÇÃO

“Marty Supreme” está quase garantido na categoria. Transformar a vida de um jogador de tênis de mesa em uma história eletrizante já é um mérito e tanto da dupla Ronald Bronstein e Josh Safdie. Fazer isso dando a intensidade típico dos filmes anteriores do diretor com um personagem forte suficiente para colocar Timothée Chalamet na dianteira de Melhor Ator e mais um conjunto de figuras fortes na tela deixa a produção da A24 bem próxima da vaga. 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL – FAVORITOS À VITÓRIA

Se em Roteiro Adaptado, o duelo será entre “Uma Batalha Após a Outra” e “Hamnet”, dois filmes também fazem disputa pesada na categoria dos originais. 

Escolher “Valor Sentimental” para ganhar o prêmio não seria nenhuma novidade na Academia: nas últimas cinco edições, “Parasita” e “Anatomia de uma Queda” marcaram vitórias de produções de língua não-inglesa na categoria. Joachim Trier e Eskil Vogt atingem o ápice da parceria já indicada uma vez ao Oscar com “A Pior Pessoa do Mundo”. Desta vez, eles aliam um drama familiar com o mundo do cinema, uma dobradinha amada pela premiação. Para completar, criam personagens impressionantes a ponto de todo o quarteto protagonista ter chances de indicação em suas respectivas categorias. 

 

Roteiro Original é a maior possibilidade de “Pecadores” vencer um dos prêmios principais da noite. Também seria um reconhecimento ao Ryan Coogler, tanto pela trajetória marcada, especialmente, com “Pantera Negra”, um marco cultural do fim da década passada, como pela coragem de realizar um blockbuster de grande orçamento original trabalhando a cultura negra norte-americana e conceitos como afrofuturismo dentro de um filme de terror com vampiros. A típica ambição que falta em Hollywood cada vez mais e que a Academia, vez ou outra, reconhece quando surge.  

Tem para ser um duelo muito interesse entre “Pecadores” e “Valor Sentimental”. Espero que seja uma corrida equilibrada até o final para daquela emoção. Neste momento, acredito mais na vitória de “Valor Sentimental”.  

Os indicados de Melhor Roteiro Original serão “Valor Sentimental”, “Pecadores”, “Marty Supreme”, “Foi Apenas um Acidente” e “O Agente Secreto”.