O Oscar é muito mais do que a qualidade do filme: ter estratégias eficientes e bem definidas são fundamentais para você ir longe na premiação. Certos estúdios precisam fazer verdadeiras ‘escolhas de Sofia’ para escolher suas prioridades, enquanto outros jogam todas as fichas em um único candidato. 

Caio Pimenta analisa quais serão as prioridades dos principais estúdios de Hollywood para a temporada de premiações rumo ao Oscar 2025.

NETFLIX

Em busca da primeira estatueta dourada de Melhor Filme que insiste em não vir, a Netflix aposta as fichas em uma produção internacional. 

Candidato da França em Melhor Filme Internacional, “Emilia Pérez” é a cara do cinema globalizado: ambientado no México, dirigido por um francês falado em diversos idiomas e com duas estrelas norte-americanas. Saiu de Cannes forte e faz um bom circuito de festivais neste segundo semestre. 

Hoje, aparece à frente de “Piano de Famíla” e “Maria”. Aliás, aqui estará o maior dilema do streaming: quem terá a preferência na campanha para Melhor Atriz? Angelina Jolie, a estrela mundial buscando o segundo Oscar da carreira, ou Karla Sofía Gascón e a possibilidade de ser a primeira artista trans indicada nas categorias de atuação?  

Dilema também se repete em Atriz Coadjuvante com Zoe Saldaña e Selena Gomez pelo musical, Daniele Deadwyler por “Piano de Família” e o trio de “As Três Filhas”. 

A Netflix ainda conta com “Assassino por Acaso” mirando o milagre em Roteiro Adaptado, a sequência de “Wallace & Gromit” nas animações e “Filhas” e “Will & Harper” em Melhor Documentário. 

PARAMOUNT PICTURES

A Paramount Pictures está jogando as fichas pesado em “Gladiador 2”: as primeiras exibições com reações positivas empolgaram o estúdio que tenta voltar a vencer o prêmio. A última vez foi com “Titanic” ao lado da 20th Century Fox. A aposta maior certamente será no Ridley Scott, um gigante de Hollywood ainda sem Oscar de Melhor Direção. 

Caso o épico romano naufrague, a opção é “September 5”: o drama jornalístico é aquele candidato pouco falado, mas, bastante elogiado por onde passa. Pode ser a surpresa de última hora da lista. Já “Better Man”, filme sobre o músico Robbie Williams, somente nas categorias técnicas, especialmente, efeitos visuais. 

DISNEY

A toda-poderosa Disney tem um único objetivo nesta temporada: recuperar Melhor Animação após perder para a Netflix e o Studio Ghibli nas últimas edições. São duas as opções para isso: “Divertida Mente 2” cercado pelo fenômeno que foi e “Moana 2” se embalar bem no fim do ano.

A Dreamworks Animation, entretanto, tentará melar o sonho com “Robô Selvagem”. “Elton John: Never Too Late” em Melhor Documentário e “Mufasa” nas áreas técnicas são outras possibilidades do estúdio do Mickey. 

APPLE E MUBI

Ganhadora de Melhor Filme com “Coda”, a Apple joga as fichas em “Blitz”. Há o risco, porém, de ficar sem nada, especialmente, após a passagem pouco chamativa pelo Festival de Londres.  

Queridinha no meio cinéfilo, a MUBI precisa trabalhar dobrado com “A Substância”, afinal, o horror corporal da Coralie Fargeat dificilmente entraria no radar por si só. O estúdio, então, foca nas atrizes Demi Moore e Margaret Qualley. Ambas nunca foram indicadas ao Oscar e já fazem por merecer a lembrança da Academia não é de hoje, especialmente, para a protagonista. 

A MUBI ainda tem planos ambiciosos para “Dahomey”: o ganhador do Festival de Berlim mira tanto Melhor Documentário como Filme Internacional, sendo o representante da África na corrida. 

SEARCHLIGHT PICTURES

“A Verdadeira Dor” é a segurança da Searchlight Pictures na temporada. Kieran Culkin forte em Ator Coadjuvante, vaga quase garantida em Roteiro Original e boas chances de indicação em Melhor Filme.

“Um Completo Desconhecido” pode ser o longa que muda toda a configuração, ampliando as chances do estúdio na temporada com a possibilidade de dois candidatos na categoria máxima e ainda grandes chances de levar Melhor Ator com o Timothée Chalamet. 

Isso não significa, entretanto, que o estúdio não teve suas decepções na temporada: “Tipos de Gentileza” está ficando esquecido mesmo com o Jesse Plemons e o Roteiro Original ainda sendo possibilidades, enquanto “Canina” dividiu mesmo crítica e público. Até mesmo para Amy Adams em Melhor Atriz está difícil. 

NEON

A Neon nem pensa duas vezes em escolher seu candidato prioritário: “Anora” foi adquirido em novembro de 2023 e se valorizou demais com a Palma de Ouro em Cannes. É a aposta do estúdio para reconquistar Melhor Filme após o fenômeno de “Parasita”, em 2020.

Falando em filmes internacionais, a Neon joga as fichas para uma segunda vaga na categoria máxima com “The Seed of Sacred Fig”. Sabendo trabalhar a narrativa de uma obra sobre machismo no Irã e a luta contra a censura, ainda há possibilidades em Direção e Roteiro Original. Todas as chances sem bater de frente com “Anora”. Cenário perfeito para o estúdio.

FOCUS FEATURES

A Focus Features vive situação semelhante: “Conclave” domina as ações e chega com potencial para ganhar Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Ator principal e coadjuvante. O estúdio deve trabalhar a linha mais tradicionalista da Academia e apostar no modelo de votação preferencial para subir na corrida.

“Nosferatu” é aquela aposta de última hora da Focus Features que pode se beneficiar de uma aclamação de crítica e pública. Já “Piece by Piece” quer surpreender em Documentário e Animação.

AMAZON/MGM

A Amazon/MGM está dividida entre “Nickel Boys” e “Rivais”. O drama do RaMell Ross fez uma temporada de festivais de segundo semestre intensa e muito boa. Por outro lado, “Rivais” traz muitos fãs do lançamento nos cinemas na metade inicial do ano.

Ambos devem sofrer para conseguir algo nas categorias de atuação, brigando mais por roteiro. Direção apenas o RaMell e, por isso, acredito que a prioridade, caso ocorra, será por “Nickel Boys.” Já “The Fire Inside” carrega a esperança nas costas do Bryan Tyree Henry em coadjuvante.

SONY PICTURES E SONY PICTURES CLASSIC

A Sony Pictures traz como missão principal recolocar o Jason Reitman no radar da Academia. O caminho mais fácil para isso, no momento, é “Saturday Night” ser indicado em Roteiro Original. Direção improvável demais e Filme está complicado, mas, a tentativa será feita. Já a ficção científica “Aqui”, do Robert Zemeckis, segue como um tiro no escuro.

A Sony Pictures Classics encontra-se em cenário mais favorável com “Ainda Estou Aqui” e “O Quarto ao Lado”. A princípio, o drama do Pedro Almodóvar seria o número um, especialmente, depois de ganhar Veneza. O filme, porém, não explodiu como esperado e perde força a cada semana.

Isso favorece o candidato brasileiro: em viés de alta, o longa do Walter Salles vê a Fernanda Torres se consolidando como um nome forte pelas últimas vagas de Melhor Atriz, diferente da Tilda Swinton e Julianne Moore. Com a vaga de Filme Internacional quase certa, a Sony pode buscar outras categorias como Roteiro Adaptado, Direção e até sonhar em Melhor Filme.

WARNER BROS

Os executivos da Warner somente não estão tendo um surto porque “Duna 2” é aquele candidato seguro e que deve liderar as indicações por conta das categorias técnicas. Maior trabalho será fazer o Denis Villeneuve não ser esnobado novamente em Melhor Direção.

De resto, problemas não faltaram: “Furiosa” e “Coringa 2” floparam e a ambiciosa proposta de “Horizon” não foi comprada pela crítica e público. Salvou-se apenas “Beetlejuice”. Todos estes podem até serem lembrados nas áreas técnicas, mas, havia expectativas bem altas para muitos deles, especialmente, à continuação do Todd Phillips e ao western do Kevin Costner.

A cereja do bolo é a situação do Clint Eastwood: havia uma atenção especial sobre “Jurado Número 2” ser o último do diretor. A Warner, entretanto, não se decidia se fazia um lançamento pequeno para colocar logo no Max ou se iria ampliando o circuito com o tempo. Quando soltou o For Your Consideration da temporada, o drama de tribunal não estava lá, mas, a estreia positiva no AFI Fest já fez muitos cogitarem uma campanha para o Oscar. Resumindo: uma bagunça completa.

Pelo menos, a Warner ter competidores fortes em Animação com o novo “O Senhor dos Anéis” e Documentário com “Super/Man: A História de Christopher Reeve”.

A24

Por fim, a A24 está gigante na temporada: “O Brutalista” e “Sing Sing” são os carros chefe, disputando entre si algumas categorias, entre elas, Melhor Filme, Ator e Ator Coadjuvante.

Se o drama do Brady Corbet está em alta desde Veneza passando pelos festivais de forma unânime tanto pela história quanto pelas ousadias técnicas, o longa com o Colman Domingo precisa ser retrabalhado depois de um lançamento fracassado nos cinemas. Certamente a narrativa da arte como instrumento para recuperar detentos será utilizada ao máximo.

A campanha da A24 para “Babygirl” não terá outro foco que não seja tornar a Nicole Kidman candidata real para a vitória em Melhor Atriz. Argumentos como a regularidade sempre em alta da australiana, a ousadia de fazer o papel mais sexy da carreira aos 50 anos e o último Oscar ter sido há mais de 20 anos entrarão em cena.

O estúdio visa também Melhor Ator principal e Coadjuvante com “Um Homem Diferente”. Se para o Sebastian Stan está mais difícil pela enorme concorrência, o Adam Pearson, além do excelente intérprete que é, deverá contar com uma campanha voltada para a questão da inclusão.

E a situação poderia ser ainda melhor para a A24 caso “Queer” e “Parthenope” não tivessem ficado no caminho e “Love Lies Blinding” não fosse tão esquisito para o padrão médio da Academia.